Hipótese
As idéias (ou pensamentos, ou vontades) são entidades autônomas semelhantes aos vírus. Ambos são incapazes de se reproduzir por seus próprios meios. Portanto precisam infectar um hospedeiro e utilizar os seus recursos para se multiplicar. Que seria das idéias, se não fossem nossa mente e nosso corpo para concretizá-las?
Infecção x Influências externas
Pessoas influenciam outras, e são por elas influenciadas também. Estamos expostos a todo tipo de idéia. Mas não somos susceptíveis a qualquer uma. Por isso, nem todos têm o mesmo pensamento. Alguns pensam “grande”, outros pensam “pequeno”, mas todos encontram na idéia fixa uma fonte de motivação e sentido para a vida.
As idéias sobrevivem à morte do hospedeiro. E podem continuar infectando. Eu, por exemplo, sou influenciado por pessoas fisicamente mortas: Machado de Assis, Nietzsche, Buda, Maquiavel etc.
Como se dá essa infecção? Por exemplo: vejo na TV uma reportagem sobre vencedores no esporte – Oscar, Guga, Senna, Bernardinho, Ronaldo, Pelé... – e imediatamente tenho vontade de vencer no esporte também. Ou seja, acabei de ser contaminado...
Disseminação x Vaidade e Persuasão
Nossas atitudes são a expressão das idéias, utilizando o nosso corpo como instrumento. A pessoa colonizada passa a ser um agente replicador de sua idéia. Os livros, as vaidades, os debates são mecanismos de disseminação das idéias, buscando infectar outras pessoas.
O prazer causado pela admiração pública está para a disseminação das idéias, assim como o prazer sexual está para a procriação do corpo. É um mero incentivo para que colaboremos com nossos “parasitas” na busca por seus objetivos.
Pessoas infectadas por idéias muito fortes têm maior probabilidade de serem bem-sucedidas naquilo que fazem. Geralmente exercem influência sobre um grande número indivíduos. Isso ocorre independentemente de o pensamento ser considerado “bom” ou “mau”. Esse mecanismo se manifesta nos líderes, nos ídolos, nos gurus, enfim, nos cidadãos notórios e exemplares. Tais personagens se diferenciam entre si somente pela idéia que os habita. A dedicação, a disciplina e o poder de persuasão são semelhantes. Se Hitler houvesse nascido na Índia, ele poderia ter sido um Gandhi.
Seleção natural x Conflitos internos
Geralmente somos infectados por mais de uma idéia. Cada uma busca sobreviver através da prevalência sobre as demais, pois para que uma vontade se concretize é necessária toda a energia de um homem. Daí decorrem nossos conflitos internos, que nada mais são do que expressões da disputa entre idéias por nossa força vital. Somos apenas uma peteca em suas mãos. Por isso, às vezes agimos como se tivéssemos mais de uma personalidade. Por isso, parecemos incoerentes. Acredito que não há nada a fazer, a não ser deixar os mecanismos de seleção natural atuarem. Com o tempo e a experiência, a idéia ou vontade mais forte prevalecerá, e então passará a dispor de toda a nossa energia para a sua realização. Essa é a razão de as pessoas maduras parecerem mais íntegras e coerentes, enquanto que os jovens parecem dispersos.
Sucessão ecológica x Amadurecimento pessoal
Somos habitados por várias vontades e, em cada fase da vida, nem sempre somos controlados pela mesma. Pode ser que em nós também existam espécies (de idéias) pioneiras, secundárias, algumas predominantes, outras parasitas, cuja distribuição populacional varia com o tempo, em direção a uma comunidade-clímax, que se mantém num equilíbrio dinâmico. Eu poderei ser diferente do que sou hoje, o que já é diferente do que fui no passado. Porém, cada fase é indispensável para a seguinte. É uma sucessão ecológica.
Talvez devêssemos encarar nossa personalidade em épocas diversas como se fossem pessoas também diferentes. Dessa forma, o arrependimento e o remorso seriam substituídos por algo como uma crítica a alguém de quem discordamos.
Sistema imunológico x Críticas
Qual o efeito prático que se espera quando criticamos alguém? Espera-se que o criticado mude? Talvez... e assim a idéia atingiria o objetivo de se disseminar. Ela teria logrado infectar mais um indivíduo. Porém acredito que a função maior da crítica seja a de reforçar as próprias idéias, desqualificando ou rebaixando alguém que, em verdade, é apenas diferente. Mesmo que a crítica não seja verbalizada, ela já ocorreu, reforçando a hipótese da auto-afirmação como objetivo. Mentalmente foi dito: “Eu não sou como Fulano e fico feliz por isso”.
Outra possibilidade é que, ao criticar, na realidade estamos apontando idéias indesejáveis que ainda nos habitam, ou que algum dia nos habitaram, mesmo que elas não existam no criticado.
Quando identificamos em nós um pensamento nocivo, indesejado ou, simplesmente, diferente, os pensamentos dominantes criam “anticorpos” (objeções) no intuito de eliminar a ameaça. Por isso só criticamos nos outros algo que existe ou existiu em nós. Só estamos preparados para nos defender daquilo que já nos atacou.
Pode acontecer de nos depararmos com alguma idéia pela qual ainda não fomos infectados. Portanto ela nos é incompreensível. Ainda não produzimos os seus anticorpos específicos. Assim, estaremos susceptíveis à sua infecção. Ou então, caso tenhamos idéias muito fortes, corremos o risco de fazer críticas injustas. Nossas idéias fortes tentam garantir a sua sobrevivência impedindo a entrada de possíveis concorrentes. No entanto, estaremos apenas denunciando algo que carregamos conosco, e não a idéia nova.
Linhas evolutivas
Existem linhas evolutivas de idéias, da mesma forma que nos vírus. À medida que nosso sistema imunológico desenvolve mecanismos de defesa, os vírus evoluem, voltando a provocar surtos periodicamente. A história da humanidade apresenta o mesmo processo com as idéias e seus surtos. As infecções modificam o nosso corpo... As idéias modificam a sociedade... E o nosso corpo modifica os vírus, e a sociedade modifica as idéias! Como pôde Sócrates ter as mesmas preocupações que homens de hoje, tão distantes no tempo?! Como posso estar sujeito à mesma tuberculose que matou tantos no século XIX?! Não são exatamente as mesmas idéias, nem os mesmos patógenos, todavia pertencem às mesmas cadeias evolutivas.
Parasitismo ou Mutualismo?
Mutualismo. Idéias e corpo interagem em benefício de ambos. Uma idéia sem um corpo não teria o instrumento para se realizar. Um corpo sem idéias não seria humano, mas um animal irracional, que busca apenas a sobrevivência e a perpetuação.
Apesar da colaboração mútua, os conflitos são freqüentes. Em algumas ocasiões o corpo prevalece, em outras, as idéias.
Estudamos tanto, somos tão esclarecidos... mas quantos resistem ao instinto procriatório do corpo? Quantos sonhos deixam de ser realizados por causa de filhos!!!
Por outro lado, freqüentemente arriscamos a integridade de nosso corpo em favor das idéias. Entre os humanos, nem sempre os melhores corpos prevalecem. Vejam o grande número de pessoas obesas, diabéticas, hipertensas, com câncer etc. que chegam à velhice e deixam descendentes. Pelo contrário, muitas vezes o corpo menos apto acaba sendo compensado por idéias vorazes, e sobressaindo aos demais.
Biodiversidade x Pluralidade de pensamento
Cada idéia tem como meta a sua sobrevivência e a sua prevalência sobre as demais. Algumas podem coexistir em harmonia, porém outras são antagônicas e, portanto, competem entre si. Como já foi dito, o ato de criticar é a manifestação de uma idéia que tenta desqualificar, enfraquecer e aniquilar uma concorrente. Da mesma forma, “elogiar” consiste numa tentativa de a idéia se fortalecer. Por isso nos sentimos incomodados vendo alguém agir de um modo de que discordamos, e então criticamos. Por isso exaltamos as qualidades de nossos semelhantes. Por isso existem as premiações. Por isso adoramos ídolos.
Por isso não seremos unanimidade: nunca agradaremos a todos. A diversidade de idéias (assim como a biodiversidade) é pré-requisito para a sua capacidade de adaptação ao meio e, conseqüentemente, à sua sobrevivência.
Eu já sou soropositivo
O meu ato de escrever é regido pelas idéias aqui registradas. Já estou infectado. Na competição com os demais pensamentos existentes em minha “comunidade individual”, estes têm levado vantagem. Eles agora preparam sua estratégia de disseminação, utilizando-se de meu corpo como instrumento. Provocam-me a vontade de escrever, atiçam a minha vaidade e o meu desejo por admiração e por reconhecimento, utilizam-se de minha fala para influenciar outras pessoas. O fato de eu ser egoísta, vaidoso e presunçoso, também faz parte dessa estratégia. Eu preciso me sentir autoconfiante para ser persuasivo ao expor meus pontos de vista. Assim, estarei contribuindo para a sobrevivência dos pensamentos que me infectaram. No entanto, nem todos os que me ouvirem serão influenciados, da mesma forma que nem todas as sementes germinam, e nem todas as infecções manifestam sintomas.
Tudo a que me dedico beneficia apenas as minhas idéias predominantes.
terça-feira, setembro 06, 2005
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